Cenário: minha rua, 18h, dia de semana. Rafaela, estudante, 12 anos, mal chega em casa e já é "convocada" para comprar pão. Vai lá, Rafaela serelepe, correndo para chegar a tempo da despeja do pão quentinho no balcão da padaria.
No meio do caminho, Rafaela é abordada por um homem que queria uma informação.
Homem: "Ei, você sabe onde mora um Lucas aqui nesta rua?"
Rafaela: "Huuum... nesta rua tem dois Lucas, um mora ali (aponto para um prédio) e outro ali (aponto para uma casa). Como que é este Lucas?"
O homem não responde e disse que estava a procura de um Lucas que morava em uma casa.
Dada a informação, pretendia seguir a caminho do nosso pão quentinho, quando o mesmo homem volta e me lança uma nova pergunta.
Homem: "Você mora nessa rua?"
Rafaela, em um raro momento de astúcia, responde: "Não!"
Mentira, morava, mas falei que não. Aquele homem se apresentava deveras esquisito. O cara se aproximou de mim, estendeu a mão e perguntou pelo meu nome, dizendo que eu era muito simpática e que queria me conhecer. Nessa hora, minhas pernas ficaram bambas, meu coração disparou e me bateu aquele desespero. A única coisa que eu consegui falar na hora foi:
"Vai tomar no seu cu!"
E saí correndo, mais rápido do que um peido, rumo à padaria. Coração acelerado, as pernas ainda bambas e, não me vi, mas aposto que eu estava super pálida. Comprei o pão e pensei: "e agora, como vou voltar para casa?". Pensei em ligar à cobrar e pedir para meu pai me buscar, mas como ele sempre me prendeu, fiquei com medo dele não me deixar mais sair de casa temendo esse homem esquisito. Não arrisquei.
Procurava alguém conhecido. Maldita hora para não ter amigos. Por sorte, encontro um conhecido de uma conhecida minha e peço para ele me acompanhar até o meu quarteirão, pois estava com medo de um homem que havia me abordado. Esse menino me leva até à minha rua. Durante o trajeto, não vi o potencial tarado em parte alguma. Por certo, viu que eu não era tão burra e poderia ter chamado a polícia. Talvez eu estivesse em um carro de polícia fazendo uma ronda até encontrá-lo e gritar: "Aqueleeee! Foi aqueleeee ali. Queria saber onde morava um tal de Lucas! Mas é tarado! Mas é tarado!!!".
Não fiz isso. Muito pelo contrário, só contei isso para um amigo meu, 10 anos depois, e hoje, aqui pra vocês, 11 anos depois. Mas por cautela, naquela ocasião, o potencial tarado já devia estar há anos-luz daquela rua.
Passado alguns meses desse episódio, estava eu na escola jogando conversa fora e falando mal da vida alheia com meus colegas de sala. O assunto era putaria e, durante a conversa, um colega meu ficou sério e contou a seguinte história:
"Meu primo me contou que uma colega dele foi estuprada. O cara chegou para ela perguntando se ela sabia onde morava o Lucas. A burra deu corta e o cara carcou ela".
Senti a mesma coisa que havia sentido naquela tadinha. Era o mesmo desespero. Mas era um aliviante desespero. Não consegui (e até hoje não consigo) imaginar o que poderia ter acontecido comigo. Só sei que eu me senti toda cagada. Alguém ali em cima tava de olho em mim, mas no bom sentido.
A conversa durou mais alguns minutos na rodinha de estudantes. Continuei ouvindo o caso atentamente, alheia a tudo e a todos. Deu 17h30, saí da escola, cheguei em casa e me mandaram para a padaria comprar pão.